quarta-feira, 16 de julho de 2008

O sabor das Cores

Era dia, meu quarto tinha as paredes brancas e a janela, como sempre, aberta. A luz entrava por ela. Não quente, como se espera dos dias ensolarados, mas branca, clara e fria.
Não tinha vento.
Deitei-me no chão na tentativa de sentir aquele lugar e ouvir o que ele tinha a me dizer.
Silêncio.
Atentei para minha camiseta verde e meus jeans brancos uma última vez e fechei os olhos. Talvez os demais sentidos estivessem me impedindo de escutar os rotineiros ruídos.
Nada e tudo.
Inúmeros barulhos e eu surdo, incapaz de reconhecer ao menos um que fosse familiar.
Sentia o gosto das cores em minha boca. Podia combiná-las como eu bem entendia e um novo sabor eu dava às coisas. Olhos azuis e lábios vermelho-rosados com camisa cinza listrada e cabelos castanho-claros caindo sobre a testa me agradavam embora algo na combinação me incomodasse. Não que fosse ruim, mas impedia de ser perfeito. Acho que era o gosto adstringente das listras que estreitavam meus sentidos, o que não era bom.
Melhor sem ela.
Abri um espaço em seu livro quando me senti satisfeito em degustar suas cores, sem interesse em ler o que nele já havia, escrevi algumas frases desconexas que me descreviam e o devolvi com cuidado, saindo em busca de outros livros, outros quartos, outras cores...
Levantou cambaleando, tateou até encontrar o interruptor. Acendeu a luz fria que piscou algumas vezes antes de iluminar o quarto e dar à sua pálida tez uma coloração amarelada e doentia. Com os olhos ainda semicerrados caminhou arrastando os pés até a cozinha.
Sabia a posição exata dos móveis ali dispostos. Abriu a porta da geladeira e apanhou a garrafa de vidro sem notar a ausência da tampa ou a diferença na coloração ou do sabor do que estava tomando. Os pesadelos se tornavam menos freqüentes quando lembrava do seu copo de leite. Entornou a garrafa derramando parte em seu peito desnudo formando uma pequena poça nos ladrilhos encardidos. Secou os lábios comas costas de uma das mãos e, com a outra, guardou a garrafa. Fechou a porta da geladeira e se virou para o corredor. Deu um passo e, quando se preparava para dar o segundo, escorregou no líquido derramado.
Uma pequena mancha de bolor no teto. Foi a última coisa que viu. A mancha, nunca antes notada, que seus olhos imóveis fitaram, incansavelmente, durante dias.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Sentou-se de frente para uma parede branca. Estava sozinho, no chão, com as pernas cruzadas. Tocou a parede com uma das mãos. Ficou sobre os joelhos e se aproximou um pouco mais. Encostou o ouvido para escutar melhor. Não passavam de ruídos mas ainda assim o instigavam. Havia algo do outro lado. Não exatamente depois da parede, mas na parede. E estava falando.
Ele não conseguia entender mas sabia que ela dizia algo. A princípio pensou ser culpa dos encanamentos velhos mas agora percebia sílabas avulsas o chamando. Pensou várias vezes em quebrá-las mas tinha medo. Temia que as vozes calassem.
Desceu até o porão, apanhou as latas de tinta sob a escada, os pincéis, e a encarou uma última vez. Pálida.
Abriu as latas e espalhou tinta por toda a superfície branca. Nenhuma das formas se aproximava de algo do mundo real. Ele parou apenas quando o último centímetro de branco ficou coberto. O suor lhe escorria pelo pescoço. Afastou-se para observar e sorriu. O que ele temia acabara acontecendo. As vozes, antes inteligíveis, cessaram. Agora elas eram claras, visíveis.
Tudo o que pediam era para serem ditas...

sexta-feira, 11 de julho de 2008

http://youtube.com/watch?v=eUB9Rq8FcEQ


Moments will pass
In the morning light
I found out
Seasons can't last
And there's just one thing
Left to ask....

sábado, 29 de março de 2008

Fechou os dedos miudos e brancos em volta em volta daquele pincel demaisado grande e de cerdas meio endurecidas, afundou ate quase a metade na lata de tinta a oleo e pos-se a pintar.
A tinta pingava no chao de madeira em gordas gotas azuis, claras como os olhos de quem as derrubava. Nao se deu o trabalho de olhar quem se aproximava. A diversao que aquilo lhe proporcionava era suficiente para tomar sua atençao por completo.
Sua mente infantil ainda nao era capaz de assimilar o que estava faltando. Seguia seus instintos, seus sentidos. Aquele azul era insosso sozinho.
Apanhou outro pincel como vira seu pai fazer tantas vezes e deu companhia as gotas azuis no assoalho. Agora olaranja vivo, avermelhado, dava um sabor agridoce a sua figura.
"O que esta pintando ai?" perguntou um adulto do sexo feminino as suas costas. Gostava dela, mas nao precisava dela nesse momento. Continuou pintando e respondeu:
"Uma arvore e uma nuvem".
Um breve silencio e entao:
"Nao precisa de mais verde?"
"Mm Mm" respondeu negativamente.
"Mas arvores sao verdes e nao azuis. O mar e azul!" insistiu a mae.
Virou-se para encara-la e quase cedeu ao ve-la segurando aquela terceira lata de tinta. Fez que nao com a cabeça e voltou a pintar. Estava satisfeito com aquelas cores que tinha e a sensaçao que elas lhe passavam.
"Essas cores nao combinam, filho. Tome aqui".
Olhou para ela, relutou um pouco, lançou um ultimo olhar para seu desenho quase pronto, virou-se para a mae que o fitava com as sobrancelhas arqueadas. Precisava agrada-la de vez em quando. Acabou cedendo.
Largou o pincel que tinha nas maos e pegou o que sua mae lhe estendia, ja encharcado de tinta verde-securo. Espalhou a tinta sobre a tela formando borroes sem sentido. Nao que aquilo que havia pintado segundos atras fizessem mais sentido aos olhos de um adulto,mas para ele bastavam.
Continuou a acrescentar o verde a tela sob o olhar da mae imaginando o quanto seria suficiente para deixa-la satisfeita. Ela simplesmente sorria sem desviar o olhar.
Havia terminado.
"Acabou?"
"Sim", respondeu o menino jogando opincelde lado indo se sentar junto a porta de vidro que dava para a varanda.
Nada sobrara na tela alem do verde e uns poucos espaços em branco. O azul e o laranja, agora cobertos, gritavam silenciosos. Nada restara alem do gosto quase amargo daquele verde que agora virava de um lado para o outro nas maos confusas de sua mae.

sábado, 15 de março de 2008


Estava em frente a uma mesa verde quando senti meu corpo ceder e meus olhos pesarem. Lembro-me de sentar no chão e depois acordar em um gramado florido.

Tudo era colorido e parecia mover-se com a brisa azul que soprava. Tão azul quanto o céu. Tudo, ao mover-se, deixava borrões para trás. Pequenos pontos coloridos que eu ainda via mesmo quando fechava os olhos.

Estava claro mas eu sabia que era tarde. Precisava estar em casa antes que os ponteiros do relógio se encontrassem.

Grandes cabeças de abóboras sorridentes falavam comigo de onde estavam, espalhadas no chão, me indicando a direção de um buraco escuro onde um pequeno traseiro branco acabava de desaparecer.

Não pude evitar o desiquilíbrio quando nossas cargas resvalaram, assim que a proximidade se fez.
Olhei ao redor pra me certificar de quem ninguém havia reparado, endireitei minha postura e alisei minha roupa displicentemente, levemente incomodado por não ter podido evitar.
Ainda sinto meu corpo girar. Não no mesmo lugar, mas numa aspiral concêntrica em que, paralelamente, outra carga se move cada vez mais rápido e mais próxima.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Manhã Seguinte

Abriu os olhos assim que o telefone começou a tocar.

Demorou ainda alguns segundos para se situar no tempo e no espaço e, quando o fez, decidiu não atender. O toque persistiu por algum tempo e depois parou. Ficou ali deitado mesmo sabendo que não conseguiria mais dormir, afundado no travesseiro.

O sol acabara de nascer e aos poucos ia invadindo o aposento em que se encontrava. Sua cabeça doía. Não se lembrava de muita coisa, e também não faia questão. O cheiro em seu corpo era familiar. Não ruim, exatamente. Mas nem muito agradável.

Já conseguia manter os olhos abertos, ainda que sentisse seu corpo pesado e sua vista estivesse embaçada. Enxergou roupas espalhadas pelo chão, então se deu conta de que estava nu e dormira na sala. Tentou puxar pela memória mas não se lembrava de nada, nem de ter saído depois do rotineiro copo de wisky, nem de ter recebido ninguém em seu apartamento, mas sabia que não estava sozinho. Não fumava desde a adolescência porém sentia o cheiro da fumaça muito próximo de onde se encontrava, sem forças.

Ouviu passos descalços se aproximarem e uma voz, não muito grave, dizer: “Imaginei que tivesse acordado com o telefone. Está melhor?” Seus olhos não reconheceram aquela figura esguia e disformemente nua em sua frente mas agradou-lhe o modo suave com que aquela voz de direcionava a ele. Tentou responder mas nenhum som saía. Apenas levantou a mão e fez sinal para que se juntasse a ele...