segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Cry Baby


Ele estava arrasado. Não era de se esperar. Na verdade tudo era imaginável, mas não aquilo. Martin não era do tipo que chora na frente dos outros, nem sozinho eu imagino. Imaginava... Ainda assim, eu me vi ali, tentando acalmá-lo mesmo depois de todo o tempo que passamos sem nos falar, nem mesmo nos olhar nos olhos um do outro. E há algumas horas atrás ali estava ele chorando para mim. Talvez a insanidade, aquela em somos colocados quando somos deixados por alguém, o tenha desorientado, ou talvez fosse aquela sensação estranha de que podemos confiar ou simplesmente nos sentir confortável com tal pessoa por já termos trocado saliva antes. Na verdade o que importa é que nunca poderia imaginar aquela situação. Eu, ele, desabafos, lagrimas, silêncio, sorrisos envergonhados – pelas lagrimas ou pelo silêncio - mais desabafos, e reflexos nas lentes dos óculos de grau impedindo-nos mais uma vez de nos encarar nos olhos.

O rapaz – Antônio, Carlos, Juan, Eduardo, Felipe, Giuliano ou André, qual deles? Eram sempre tantos.. – o havia deixado. E por isso ele chorava. Não comia há dias e tremia. Chorava, e fumava. Devia beber também. Confessou ter ligado quando borracho, mas ele, o rapaz, não atendia. And you swear that you just don't know why, dizia Janis Joplin em meus pensamentos. Gritava, melhor dizendo.

Acende mais um cigarro, mais algumas confissões, mais alguns sorrisos envergonhados e eu, vazio do que dizer, mudei de assunto. Pretende fazer o que depois daqui? Não sei. Continuar estudando, ir pra França, talvez Cuba. Bons lugares, pensei. Eu vou pra Argentina.. And when you walk around the world, babe, – Janis insistia em tagarelar em meu ouvido, – e quiser chorar, talvez você saiba onde me encontrar.