sábado, 29 de março de 2008

Fechou os dedos miudos e brancos em volta em volta daquele pincel demaisado grande e de cerdas meio endurecidas, afundou ate quase a metade na lata de tinta a oleo e pos-se a pintar.
A tinta pingava no chao de madeira em gordas gotas azuis, claras como os olhos de quem as derrubava. Nao se deu o trabalho de olhar quem se aproximava. A diversao que aquilo lhe proporcionava era suficiente para tomar sua atençao por completo.
Sua mente infantil ainda nao era capaz de assimilar o que estava faltando. Seguia seus instintos, seus sentidos. Aquele azul era insosso sozinho.
Apanhou outro pincel como vira seu pai fazer tantas vezes e deu companhia as gotas azuis no assoalho. Agora olaranja vivo, avermelhado, dava um sabor agridoce a sua figura.
"O que esta pintando ai?" perguntou um adulto do sexo feminino as suas costas. Gostava dela, mas nao precisava dela nesse momento. Continuou pintando e respondeu:
"Uma arvore e uma nuvem".
Um breve silencio e entao:
"Nao precisa de mais verde?"
"Mm Mm" respondeu negativamente.
"Mas arvores sao verdes e nao azuis. O mar e azul!" insistiu a mae.
Virou-se para encara-la e quase cedeu ao ve-la segurando aquela terceira lata de tinta. Fez que nao com a cabeça e voltou a pintar. Estava satisfeito com aquelas cores que tinha e a sensaçao que elas lhe passavam.
"Essas cores nao combinam, filho. Tome aqui".
Olhou para ela, relutou um pouco, lançou um ultimo olhar para seu desenho quase pronto, virou-se para a mae que o fitava com as sobrancelhas arqueadas. Precisava agrada-la de vez em quando. Acabou cedendo.
Largou o pincel que tinha nas maos e pegou o que sua mae lhe estendia, ja encharcado de tinta verde-securo. Espalhou a tinta sobre a tela formando borroes sem sentido. Nao que aquilo que havia pintado segundos atras fizessem mais sentido aos olhos de um adulto,mas para ele bastavam.
Continuou a acrescentar o verde a tela sob o olhar da mae imaginando o quanto seria suficiente para deixa-la satisfeita. Ela simplesmente sorria sem desviar o olhar.
Havia terminado.
"Acabou?"
"Sim", respondeu o menino jogando opincelde lado indo se sentar junto a porta de vidro que dava para a varanda.
Nada sobrara na tela alem do verde e uns poucos espaços em branco. O azul e o laranja, agora cobertos, gritavam silenciosos. Nada restara alem do gosto quase amargo daquele verde que agora virava de um lado para o outro nas maos confusas de sua mae.

sábado, 15 de março de 2008


Estava em frente a uma mesa verde quando senti meu corpo ceder e meus olhos pesarem. Lembro-me de sentar no chão e depois acordar em um gramado florido.

Tudo era colorido e parecia mover-se com a brisa azul que soprava. Tão azul quanto o céu. Tudo, ao mover-se, deixava borrões para trás. Pequenos pontos coloridos que eu ainda via mesmo quando fechava os olhos.

Estava claro mas eu sabia que era tarde. Precisava estar em casa antes que os ponteiros do relógio se encontrassem.

Grandes cabeças de abóboras sorridentes falavam comigo de onde estavam, espalhadas no chão, me indicando a direção de um buraco escuro onde um pequeno traseiro branco acabava de desaparecer.

Não pude evitar o desiquilíbrio quando nossas cargas resvalaram, assim que a proximidade se fez.
Olhei ao redor pra me certificar de quem ninguém havia reparado, endireitei minha postura e alisei minha roupa displicentemente, levemente incomodado por não ter podido evitar.
Ainda sinto meu corpo girar. Não no mesmo lugar, mas numa aspiral concêntrica em que, paralelamente, outra carga se move cada vez mais rápido e mais próxima.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Manhã Seguinte

Abriu os olhos assim que o telefone começou a tocar.

Demorou ainda alguns segundos para se situar no tempo e no espaço e, quando o fez, decidiu não atender. O toque persistiu por algum tempo e depois parou. Ficou ali deitado mesmo sabendo que não conseguiria mais dormir, afundado no travesseiro.

O sol acabara de nascer e aos poucos ia invadindo o aposento em que se encontrava. Sua cabeça doía. Não se lembrava de muita coisa, e também não faia questão. O cheiro em seu corpo era familiar. Não ruim, exatamente. Mas nem muito agradável.

Já conseguia manter os olhos abertos, ainda que sentisse seu corpo pesado e sua vista estivesse embaçada. Enxergou roupas espalhadas pelo chão, então se deu conta de que estava nu e dormira na sala. Tentou puxar pela memória mas não se lembrava de nada, nem de ter saído depois do rotineiro copo de wisky, nem de ter recebido ninguém em seu apartamento, mas sabia que não estava sozinho. Não fumava desde a adolescência porém sentia o cheiro da fumaça muito próximo de onde se encontrava, sem forças.

Ouviu passos descalços se aproximarem e uma voz, não muito grave, dizer: “Imaginei que tivesse acordado com o telefone. Está melhor?” Seus olhos não reconheceram aquela figura esguia e disformemente nua em sua frente mas agradou-lhe o modo suave com que aquela voz de direcionava a ele. Tentou responder mas nenhum som saía. Apenas levantou a mão e fez sinal para que se juntasse a ele...